O ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Marco Aurélio Mello fez duras críticas ao atual momento vivido pela Corte, em entrevista publicada na terça-feira (22) pelo jornal O Estado de S. Paulo. Para ele, o Supremo atravessa uma fase de “extravagância” institucional, com decisões que, segundo suas palavras, causam um “enorme” desgaste à imagem do Judiciário e contrariam princípios do estado democrático de direito.O ex-presidente do STF criticou especialmente medidas recentes determinadas por Moraes, como a imposição de tornozeleira eletrônica e restrições à comunicação de Bolsonaro, classificando-as como “mordaça” e “censura prévia”. “Ele (Moraes) proibiu, por exemplo, diálogos. Mordaça, censura prévia, em pleno século que estamos vivendo. É incompreensível”, disse.
Marco Aurélio também questionou a competência do STF para julgar Bolsonaro, argumentando que os processos deveriam tramitar na primeira instância, assim como ocorreu com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em investigações anteriores. “O que começa errado não pode acabar bem. […] Por que o ex-presidente Bolsonaro está a responder no Supremo? Isso é inexplicável, e a história em si é impiedosa, vai cobrar essa postura do Supremo”, declarou.
Ao final da entrevista, Marco Aurélio fez um apelo por mudanças na dinâmica de funcionamento do STF, defendendo o retorno do colegiado como instância decisória principal. “Que haja uma evolução, e que o Supremo atue, não como órgão individual como vem atuando na voz do ministro Alexandre de Moraes, mas como órgão coletivo, e percebendo a repercussão dos atos que pratica. Aí nós avançaremos culturalmente”, concluiu.
Na segunda-feira (21), Moraes deu 24 horas para que a defesa explicasse a publicação de vídeos e fotos nas redes sociais com Bolsonaro exibindo a tornozeleira eletrônica e dando declarações, pouco depois de participar de uma reunião convocada pelo PL na Câmara dos Deputados. O ministro questionou se o ex-presidente teria violado a medida cautelar que o impede de usar redes sociais, direta ou indiretamente.
Em resposta, os advogados alegaram que “o embargante [Jair Bolsonaro] não postou, não acessou suas redes sociais e nem pediu para que terceiros o fizessem por si”. Eles também argumentaram que a decisão de Moraes não deixou claro se a proibição abrange entrevistas concedidas à imprensa, cujo conteúdo pode ser replicado em plataformas digitais por terceiros. “A fim de que não haja qualquer equívoco na compreensão da extensão pretendida pela medida cautelar imposta […] requer que a decisão seja esclarecida, a fim de precisar os exatos termos da proibição”, diz o documento.
Aliados do ex-presidente também estiveram na sede do PL nesta quarta, como o senador Magno Malta (PL-ES) e o líder da legenda na Câmara, deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ). Ao ser questionado sobre a articulação de parlamentares bolsonaristas para pressionar os Estados Unidos a revogar o visto do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), como ocorreu com ministros do STF, Magno Malta respondeu: “Eu acho que todo mundo que está violando a liberdade — que é um direito garantido pela Primeira Emenda nos Estados Unidos — ou tem cooperado com isso ou tem feito parte desse consórcio, juntamente com o Alexandre de Moraes, o Barroso, que vêm violando sistematicamente, vai junto”.
A decisão de Moraes sobre o futuro de Bolsonaro é aguardada ainda para esta quarta-feira.
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