Ontem (15), recebi um email de uma professora do interior do Maranhão, que pediu que não fosse identificada, perguntando o porquê de eu cobrar tanto o questionamento crítico dos alunos em meus textos.
Diante da pergunta, procurei a melhor forma de explicar dentro do meu conhecimento a importância do questionamento crítico para o desenvolvimento da sociedade.
Mas antes de entrar no assunto propriamente dito, gostaria de deixar uma reflexão bem elaborada pelo educador Carlos Luckesi sobre a educação quantitativa e não qualitativa no Brasil. “Você daria um brevê (carteira de piloto de avião) a um aluno que sabe decolar, pilotar bem, porém não sabe aterrisar um avião? Com certeza não!!! Agora, porque a educação brasileira aprova um aluno que sabe somar e diminuir, mas não aprendeu a dividir e multiplicar?
Mas vamos ao que interessa. Na atualidade, penso que a preocupação dos que investigam novos caminhos para o ensino/aprendizagem não está na simples superação da mera descrição de teorias expositivas e não dialogada, nem na visão de que o conhecimento é algo que se constrói. As atenções da educação estão hoje basicamente voltadas para a idéia de cidadania e para a formação de professores com novos perfis profissionais, docentes em condições de trabalhar com uma visão interdisciplinar da ciência, própria das múltiplas formas de se conhecer e intervir na sociedade hoje.
Neste sentido, as propostas mais adequadas para um ensino coerente com tal direcionamento devem favorecer uma aprendizagem comprometida com as dimensões sociais, políticas e econômicas que permeiam as relações entre ciência, tecnologia e sociedade. Trata-se, assim, de orientar o ensino para uma reflexão mais crítica e questionadora, pois assim estaremos dando condições que implicam na na sociedade e na qualidade de vida de cada cidadão.
É preciso preparar os cidadãos para que sejam capazes de participar, de alguma maneira, das decisões que se tomam nesse campo, já que, em geral, são disposições que, mais cedo ou mais tarde, terminam por afetar a vida de todos.
Apesar de ser uma metodologia de consenso entre educadores, vale lembrar que, em geral, os textos sobre o assunto não apontam uma metodologia específica, uma “receita” perfeita para se conseguir formar cidadãos críticos, autônomos e participativos. Primeiro porque essa “receita”, de fato, não existe. E segundo, porque a relação entre professor e aluno não é uma relação que caiba em uma receita. Os valores, o estilo, a personalidade, a maneira de encarar o mundo do professor ainda está preso no tradicional, na existência de uma hegemonia em sala de aula. Por isso, não pretendo aqui estabelecer nenhuma receita aos professores, mas apenas fazer uma reflexão sobre a noção de espírito crítico dentro da área do ensino/aprendizagem.
É certo afirmar que os currículos escolares estão formados no tradicional, coisa que dificulta a vida do professor. Refiro-me às rígidas divisões das áreas de conhecimento em disciplinas estanques: Física, Química, Biologia, Matemática, História… Essas divisões impedem que os estudantes reconheçam como esses conhecimentos se relacionam e, mais, como podem afetar suas vidas, tornando, assim, difícil uma discussão abrangente, a crítica e o questionamento produtivo sobre as ciências.
O outro aspecto que parece ser um obstáculo para uma aproximação das relações entre o ensino, a crítica e o questionamento na sala de aula é o receio que muitos professores têm, em particular os de ciências, de discutir temas relacionados com valores. Isso leva o professor a fugir da discussão e manter suas aulas em patamares seguros, ou seja, tradicionalmente neutra.
Em geral, e penso que isso faça parte da tradicional formação profissional-cultural do professor, nenhum ou quase nenhum deles se sente à vontade quando o tema da aula não faz parte de um conteúdo conceitual previsto. Raramente o professor aprecia o debate aberto, imprevisível. Por isso, as discussões sobre os diversos pontos de vista dos estudantes acerca dos significados éticos, políticos e sociais são naturalmente eliminados da sala de aula.
No entanto, todos sabem que os novos objetivos para o ensino/aprendizagem está pautado no debate e exigem, para tanto, educadores abertos, dispostos a questionar com seus alunos o lugar da ciência no mundo, sua relação com o bem-estar humano e com outros valores da sociedade.
Na verdade, o professor tem o papel preponderante para fomentar o debate em sala de aula, pois assim estará formando cidadãos conscientes e críticos. Contudo, a preocupação central do professor está em dar apenas o conteúdo programático, coisa absorve todo tempo da aula em mero tradicionalismo das aulas expositivas e não dialogadas.
Para isso, um ponto que deverá ser questionado consiste em se perguntar sobre a capacidade crítica dos alunos. Mais ainda, se é possível ensinar o aluno a ser crítico. Considerando que um dos elementos da formação para a cidadania resume-se em aprender a ser crítico, como desenvolver nos estudantes tal habilidade?
Publicado em: Governo