Ex-funcionária de Roberta Luchsinger relata que filho do presidente frequentava o imóvel ao menos duas vezes por semana

Alvo de investigações da Polícia Federal (PF) por suspeita de tráfico de influência, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e a lobista Roberta Luchsinger utilizavam uma casa no Lago Sul, região nobre de Brasília, durante suas visitas à capital federal. O imóvel era alugado por Luchsinger, que costumava realizar reuniões discretas no local.
— Não era (casa) de morar. Era uma casa alugada, que quem fica mais tempo eram os funcionários. Era realmente uma casa de reunião. Geralmente, às 9h, vinha uma ou duas pessoas. Eu não ouvia as conversas, só servia café e era isso. Minha função era de doméstica. Não tinha envolvimento — disse Zildeni.
Ela afirmou que era responsável por relatar a Luchsinger o que ocorria no imóvel quando a empresária estava fora de Brasília. De acordo com o relato de Zildeni, Luchsinger e Lulinha frequentavam o imóvel ao menos duas vezes por mês. Em algumas ocasiões, segundo a empregada doméstica, o filho do presidente aparecia sozinho, e a empresária a avisava que “o seu Fábio está indo”, conforme áudio incluído em um processo trabalhista que a funcionária apresentou contra Luchsinger após sua demissão.

“Semana que vem o seu Fábio está indo. E aí vai com visita, vai ficar no quarto das kids (crianças). Aí você arruma as camas de criança para os adultos que vão ficar”, diz um áudio enviado por Luchsinger à empregada. A gravação foi revelada pelo Metrópoles e confirmada pelo GLOBO.
— Às vezes ela (Roberta) me dizia: “Olha, o Fábio está indo”. Inclusive, a Renata (esposa de Lulinha) falou para eu cuidar do Fábio — disse a empregada. — (Ele) Ficava sentado na beira da piscina fumando o cigarrinho dele. Ficava dois dias e ia embora. Vinha sempre segunda-feira, quarta… — descreveu ela.
Procurada, a defesa de Lulinha afirmou que ele não morava na residência, não cometeu nenhuma irregularidade e está à disposição da Justiça para prestar esclarecimentos.
— O Fábio e a Roberta nunca negaram a relação de amizade, que eles tanto se orgulham. Ele frequentava a casa da Roberta naturalmente como fazia com outros amigos. Isso não é motivo de segredo. Não podemos permitir que as amizades sejam criminalizadas — disse o advogado Marco Aurélio de Carvalho, que defende o filho do presidente.
O defensor afirma ainda que Lulinha não participou de nenhuma reunião com empresários ou clientes de Luchsinger e afirmou que o filho do presidente é alvo de uma “perseguição absolutamente implacável” e “injustificada” por setores da PF que, conforme ele, estão “a serviço de interesses político-eleitorais”.
A defesa de Luchsinger, por sua vez, afirmou que não iria se pronunciar. No seu perfil no Instagram, a empresária se queixou das investigações policiais e do que classificou como “ataques diários” ao “seu nome” e a “pessoas queridas”.
Hospedagem no Alvorada
Filho mais velho do casamento de Lula com a ex-primeira-dama Marisa Letícia, morta em 2017, Lulinha se mudou para Madri, na Espanha, no ano passado. Ele possui empresas na área de tecnologia e foi citado em escândalos nos primeiros mandatos do pai. Segundo pessoas próximas ao presidente, ele preferia ficar no imóvel alugado por Luchsinger quando estava em Brasília por não manter uma relação de proximidade com Rosângela Silva, a Janja, sua madrasta. Ele evitava se hospedar no Palácio da Alvorada, residência oficial da Presidência.
A casa, localizada em um condomínio fechado, com acesso apenas a pessoas autorizadas, possui características de alto padrão. Com uma área de 2.110 metros quadrados, o imóvel tem três quartos, piscina, jardim, churrasqueira e um cômodo para escritório onde ocorriam os encontros. O aluguel na região custa, em média, R$ 240 mil ao ano, conforme informações de imobiliárias.
De acordo com registros em cartório, o imóvel no Lago Sul pertence a um empresário que atua na área de mineração de calcário e mora fora do país. A residência em Brasília foi alugada por Roberta em 2024. Segundo funcionários do local, Lulinha e a amiga estão há sete meses sem aparecer na residência. Eles evitaram frequentar o imóvel após virem à tona as investigações que apontaram o envolvimento de Luchsinger com o empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, pivô dos descontos indevidos em aposentadorias e pensões.
Roberta publicou em uma rede social uma foto na casa do Lago Sul em 18 de dezembro do ano passado, mesmo dia em que foi alvo de operação da PF. Na ocasião, agentes cumpriram mandados de buscas e apreensões em seu endereço em São Paulo, mas não em Brasília. “Aos mentirosos, apenas a justiça”, escreveu.
Visita de Marcola
Uma das pessoas que visitaram a casa, segundo a ex-funcionária de Luchsinger, foi Marcola, ex-chefe de gabinete do presidente Lula. Ela disse se recordar da imagem dele em uma reunião ocorrida no imóvel. Procurado diretamente e por meio da sua defesa, Marcola não se manifestou.
A relação entre Marcola, Lulinha e Roberta é citada em um dos inquéritos da Polícia Federal abertos pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Em mensagem enviada ao filho do presidente, Roberta cita um incômodo de Marcola com “Fernarndo”, que, de acordo com as investigações, é Fernando Bittar, ex-sócio do filho do presidente. “Marcola não quer. Ele tá incomodado. Falou para gente almoçar com Berger e ele sem Fefe. Porque ele não quer mesmo”, escreve Roberta, ao que Lulinha responde: “Isso…. Ja é o terceiro almoço que eu tenho com ele e ele pede pra ser só entre nós.”
Em outra mensagem encontrada pela PF e revelada pelo GLOBO, Marcola recebeu um modelo de contrato para venda de medicamentos à base de canabidiol ao Ministério da Saúde, com dispensa de licitação. O documento foi enviado por Roberta, que tentava intermediar um negócio com a pasta, o que não ocorreu, em meio à eclosão do escândalo dos descontos indevidos no INSS. Marcola confirmou a interlocutores que recebeu o material, mas disse que não o encaminhou.
A PF também descobriu que Roberta comprou duas joias que Marcola pediu para presentear familiares no Dia das Mães de 2024, conforme revelou o colunista Lauro Jardim, do GLOBO. A investigação aponta que o ex-assessor enviou por WhatsApp a foto do modelo das peças, e Roberta pagou a fatura de R$ 9,2 mil. Ao longo de 2024, segundo o colunista, a empresária transferiu a ele um total de R$ 217 mil entre transferências bancárias, pagamentos de boletos e presentes.
Outros diálogos interceptados pela PF mostram que Lulinha e Roberta discutiam negócios em conjunto. Em uma das conversas, em 22 de março de 2024, a empresária diz a Lulinha: “Nosso nível tá outro. Nosso futuro é Suíça. Poucos negócio é bom (sic). Esse povo aqui tá em outra vibe”. O filho do presidente respondeu em seguida: “Isso. Deixa eles. Trabalho para caralho e nunca dá em nada”. O conteúdo, que está em posse dos investigadores, foi revelado pelo Metrópoles e confirmado pelo GLOBO.
Além das reuniões na casa do Lago Sul, Luchsinger costumava cumprir agendas em ministérios e órgãos públicos, representando empresas que tinham interesse em fechar contratos públicos, quando estava em Brasília. Há registros de oito agendas no Palácio do Planalto e pelo menos 32 visitas em gabinetes dos ministérios da Saúde, do Desenvolvimento Social e no BNDES, entre outros locais, no período de 2023 a 2025. A informação foi divulgada pelo jornal O Estado de S. Paulo e confirmada pelo GLOBO. Lulinha, por sua vez, tem cinco registros de acessos no Planalto nesse mesmo período.
Amigo de Lulinha e Luchsinger, o ministro do Desenvolvimento e Assistência Social, Wellington Dias, disse que encontrou os dois em uma festa feita para o filho do presidente em uma casa, em Brasília. Ele disse, no entanto, não se recordar do endereço.
— Não tenho na memória o endereço, mas na condição de convidado pelo Fábio, estive no aniversário de Fábio. Sou amigo da família do Lula e estive nesta oportunidade com familiares e amigos dele — disse o ministro, que hoje é um dos coordenadores de campanha do presidente.
Publicado em: Política



