Delegados da Polícia Federal relataram ao gabinete do ministro André Mendonça, em março, se sentirem pressionados após vazamentos revelarem diálogos entre o ministro Alexandre de Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro.
Um dos temores do grupo de investigadores era se tornar alvo do inquérito das fake news, conduzido à época por Moraes, sob alegação de que eventual produção de relatório contra o ministro ou novos vazamentos pudessem ser compreendidos pelo relator como ataque a integrante do STF (Supremo Tribunal Federal).
Foi diante desse cenário que um dos delegados da PF conversou com o próprio ministro André Mendonça, em 7 de março de 2026. A conversa se deu por ligação por vídeo, segundo relatos obtidos pelo UOL
Após descrever o cenário, a equipe da investigação enviou um HD com a cópia do celular de Vorcaro para o gabinete do ministro, para segurança das informações. Os dados foram enviados às 10h07 do dia 8 de março, domingo, em arquivo encriptado, com senha e lacrado.
Em manifestação na sexta-feira (11), Mendonça afirmou ao presidente do STF, Edson Fachin, que não acessou o HD com os dados do banqueiro, que segue lacrado em seu gabinete.
Para reconstituir o episódio, o UOL conversou, sob reserva, com cinco pessoas envolvidas no caso. Todos relataram o que levou os delegados a conversarem com Mendonça. Há divergência, no entanto, sobre quem tomou a iniciativa de sugerir o envio de uma cópia do celular de Vorcaro ao gabinete do ministro.
Enquanto pessoas próximas a Mendonça e parte dos investigadores alegam que os delegados enviaram o celular de forma espontânea e voluntária, integrantes da cúpula da corporação e um delegado afirmam que os dados foram solicitados, por ligação, pelo gabinete do ministro.
Procurados, os gabinetes de André Mendonça, Alexandre de Moraes e Edson Fachin não se manifestaram. A Polícia Federal informou que não se “manifesta sobre investigações em andamento”.
Reuniões
A jornalista Malu Gaspar revelou no jornal O Globo, no dia 6 de março, que Daniel Vorcaro trocou mensagens com o ministro Alexandre de Moraes no dia em que foi preso. A reportagem foi publicada à meia-noite.
No início da noite daquela sexta-feira, Moraes divulgou uma nota negando as conversas com o banqueiro. Ele disse que a análise técnica nos dados telemáticos de Vorcaro, tornados públicos pela CPMI do INSS, “constatou que as mensagens de visualização única enviadas por ele no dia 17 de novembro de 2025 não conferem com os contatos do ministro Alexandre de Moraes nos arquivos apreendidos”.
Na manhã do dia seguinte —sábado, 7 de março—, o chefe da Dicor (Diretoria de Investigação e Combate ao Crime Organizado e à Corrupção da Polícia Federal), Dennis Cali, se reuniu com os delegados responsáveis pela investigação do caso Master. Seis pessoas participaram da reunião.
No encontro, Cali comunicou à equipe que os vazamentos haviam causado forte repercussão por envolver um ministro do STF. Segundo relatos, ele orientou que os delegados não produzissem relatórios envolvendo o ministro Alexandre de Moraes sem uma decisão judicial, sob o argumento de que a Polícia Federal não pode investigar ministro do Supremo sem autorização do tribunal.
Ele ainda orientou que, se alguém estivesse produzindo relatório envolvendo o nome do ministro, que deletasse o material. Cali lembrou da resposta unânime do Supremo de arquivar as suspeitas envolvendo o ministro Dias Toffoli com o argumento de que o informe policial era um “lixo jurídico”. Lembrou também da abertura de investigação, no inquérito das fake news, contra a Receita Federal e o Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), por suposto vazamento de informações fiscais de ministros e familiares.
Foi depois dessa conversa que um dos delegados responsáveis pela investigação ligou para um auxiliar do gabinete de Mendonça. Ele relatou a conversa com o diretor Dennis Cali e o temor de ser alvo de investigação no inquérito das fake news. Em seguida, o mesmo delegado conversou por telefone com o próprio relator do caso Master.
Mendonça sugeriu que os delegados enviassem uma manifestação formal ao seu gabinete comunicando que se sentiam pressionados, mas a equipe da PF resistiu à ideia por receio de retaliações. Nesse contexto, surgiu a ideia do envio do HD com os dados do celular de Vorcaro —uma espécie de backup de segurança para o gabinete do ministro-relator, algo incomum em investigações.
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Publicado em: Política



