
"Você sabe de quem estou falando"
A hipocrisia é um dos sentimentos mais baixos, denegrindo a criatura de forma irremediável, já que toda a sua ação se baseia na falsidade de propósitos que o hipócrita procura esconder, simulando ser virtuoso quando não o é. É comum nos temperamentos vulgares, o que lhes permite prosperar na mentira e nos ardis inescrupulosos que sempre armam, para tirar vantagem de tudo e de todos. Têm absoluta certeza de que praticam atos indignos, mas jamais confessam isso.
A hipocrisia reveste-se de numerosos matizes ou graus, já que o hipócrita finge sempre ter o que não tem. Assim, suas virtudes são pseudovirtudes, falsas, fingidas, simuladas, agindo sempre como um impostor. Para que a criatura de bons propósitos possa proteger-se da falsidade e dos falsos, vamos, nos parágrafos seguintes, apresentar alguns desses matizes, artifícios e subterfúgios.
Os hipócritas sempre projetam uma sombra sobre o ambiente em que atuam para melhor poderem simular as qualidades e aptidões que consideram vantajosas. Usam artifícios sutis e requintados e armam defesas de todo tipo para não serem desmascarados. Sua honestidade é indecisa, insípida, camuflada e, assim também, a sua moralidade. Não sabem ouvir a voz interior de sua consciência, isto é, procuram cúmplices para melhor facilitar a sua ação nefasta.
Os hipócritas não são movidos por nenhuma firmeza e, ao contrário dos virtuosos, não têm caráter digno. Esquivam-se à responsabilidade de seus atos, são ousados na traição e tímidos na lealdade. Sua habilidade de difamar, conspirar, confabular e agredir, muitas vezes com simulada suavidade, é ilimitada. Jamais se expõem ou revelam sua personalidade verdadeira, ostentando uma espécie de armadura, para não deixar visível o seu caráter. Têm absoluta certeza de que seus atos são indignos, mas não confessam isso nunca.
Procura abafar a dignidade dos simples, emudecer os escrúpulos dos incapazes de resistir à tentação do mal. Ao hipócrita faltam virtudes para renunciar ao mal e coragem para assumir a responsabilidade de seus atos. Nesta mesma linha de raciocínio, procuram destruir os sonhos, planos e projetos dos que têm entusiasmo, colocando defeitos em tudo.
Gabam-se simploriamente de serem honestos e bajulam os virtuosos, de quem têm inveja que não confessam. Procuram igualar-se às criaturas superiores, mas com um pouco de argúcia pode-se perceber esse disfarce. Às vezes, simulam submissão e até amor àqueles que detestam e carcomem. Sua perversidade os inquieta com escrúpulos que os envergonha, mas apenas em silêncio,em segredo. Sedesmascarados, descoberta a sua falsidade, sofrem o mais cruel dos castigos.
O hipócrita tem grande apetite por valores materiais, principalmente pelo dinheiro, e este o impele a descoberto. Não retrocede diante das artimanhas de seus adversários e costuma acumpliciar-se para vencê-los. Gosta de ser reverenciado, bajulado. Sabe farejar o rastro de negócios escusos, vende-se ao melhor ofertante, prospera através de maracutaias. Assim, parece triunfar sobre os sinceros e incautos, sempre usando ardis e motivos vis. Se, para obter os seus inescrupulosos propósitos vier usar a intriga, sua “honestidade” se macula e se torna capaz de todos os rancores. Por isso, é preciso tomar muito cuidado para não se colocar em seu caminho; se o fizer, desmascare-o logo de início, retire a sua máscara de forma a desestimulá-lo de prosseguir nos seus intentos, embora sabendo que, daí por diante, será por ele desprezado e odiado.
Em certo sentido, em muitas ocasiões, a hipocrisia pode causar mais mal que o ódio, embora este seja um dos sentimentos que mais corrói a alma humana. O homem digno é valoroso, mas o hipócrita é amedrontado. Por isso, o homem digno desabafa-se, enquanto o hipócrita simula, escamoteia, disfarça; aquele, sabe cancelar ou anular seu eventual ódio, enquanto este nem sequer admite que o tenha. Por isso, não abre o seu coração a ninguém e, sempre que necessário, finge ter ódio.
Com relação às crenças ou religiões, o hipócrita professa a que lhe é mais vantajosa. Dessa forma, escolhe ou adota uma religião por conveniência, não por convicções morais, ou seja, sua religião é uma atitude, não um sentimento interior. Por isso, não raro, costuma exagerá-la, assumindo a posição de fanático. Assim, nas horas de crise em que a fé agoniza no fanatismo, perde o alento e cai no exagero materialista de quase todas, senão todas as religiões, mudando de uma para outra com facilidade, já que não têm um ideal a preservar.
A moral do hipócrita está no fato de tirar vantagens de tudo e de todos; a moral da criatura virtuosa está nas boas intenções e na finalidade de suas ações, sempre objetivas, claras, honestas e dignas. O hipócrita é constrangido a manter suas aparências, enquanto que o virtuoso cuida de seus ideais com entusiasmo e otimismo.
A hipocrisia é um estado de ser mais profundo do que a mentira, já que esta é acidental e aquela, permanente. O hipócrita faz o contrário do que diz toda vez que isto lhe traga benefícios. Por isso, vive traindo a sua própria palavra ou embaralhando suas promessas quase nunca cumpridas ao pé da letra, transformando a sua vida interior em uma mentira metódica e organizada. De tão habituado à mentira, tem dificuldade de falar a verdade. Assim, aqueles que o ouvem, isto é, suas vítimas são iludidas por acreditarem que ele está dizendo a verdade. Daí que, o hipócrita, uma vez descoberto, não merece crédito, não se deve mais nele acreditar, é desleal e desonesto. Para se defender, então, o hipócrita se torna calculista, já que não consegue mais disfarçar o seu intento.
O hipócrita encontra na mentira o instrumento ideal para servir aos seus propósitos, já que nele os atos estão sempre em desacordo com as palavras. Qualquer que seja a sua posição social, o hipócrita está sempre disposto a adular os poderosos e a enganar os humildes, usando a mentira como sua arma. É uma postura totalmente oposta à do virtuoso, em que a verdade é condição fundamental. Enquanto o virtuoso mantém sempre uma condição de respeito e honestidade, o hipócrita é sempre bajulador. Está inclinado ao mal, mas como lhe falta ousadia, contenta-se em cultivar as aparências, desdenhando a realidade, mas não consegue usar o seu disfarce perante todos. Não consegue, porém, enganar a todos ao mesmo tempo e, quando é desmascarado, o mundo parece desabar aos seus pés.
O hipócrita detesta os homens retos, pois estes, com sua retidão, humilham os oblíquos que não confessam a sua covardia. Por isso, repetimos, simula tudo. Nele, até o sorriso é falso. Difama na surdina e trai sempre que necessário para atingir seus fins. Só pensa em si mesmo, caracterizando com isso sua acentuada pobreza de espírito. Com isso, fica-lhe difícil manter uma amizade verdadeira. Sendo indiferente ao mal do seu semelhante é, freqüentemente, levado à cumplicidade indigna para ajudá-lo a cumprir seus propósitos.
O hipócrita não hesita em levantar suspeitas se isso lhe interessar, e com sua palavra, destruir ou separar amigos e amantes, envenenando com sua suspeita falsa a confiança mútua que ali existia e, portanto, jogando por terra a harmonia que entre os amigos reinava. Outra vez, a mentira é o seu sustentáculo! Por isso mesmo, não tem sentimento para com a família, a classe, as raças e a pátria, não é simpático a qualquer ideal, mas pode simular simpatia mentindo para explorar melhor esses sentimentos. Dessa forma, o hipócrita só é generoso para obter vantagens e, como exemplo, podemos notar que só pratica uma ação digna quando tiver a certeza de que suas ações serão notadas. Tudo o que é seu tem mais valor, é supervalorizado e o que não lhe pertence, mas é por ele cobiçado, é subvalorizado.
Publicado em: Governo