Após Cúpula dos Líderes que precedeu a abertura oficial da COP30, o chanceler alemão, Friedrich Merz, deixou o Brasil sem se comprometer com um investimento no TFFF (Fundo Florestas Tropicais para Sempre, da sigla em inglês). De acordo com diplomatas daquele país, a proposta brasileira envolve riscos financeiros.
A proposta cunhada pelo governo brasileiro junto ao Banco Mundial, que assumirá a gestão do fundo, tem o objetivo de financiar a conservação das florestas tropicais em todo o mundo. Para isso, pretende coletar US$ 25 bilhões de países e US$ 100 bilhões de investidores privados e aplicá-los em fundos de renda fixa de economias emergentes. Os rendimentos seriam divididos entre os investidores e as florestas tropicais.
Alguns detalhes ainda devem ser resolvidos para reduzir os riscos, afirmou à coluna um integrante da diplomacia alemã. De acordo com interlocutores dos países potencialmente investidores, o Reino Unido também teria recuado pelo mesmo receio.
Articuladores do TFFF contavam com um anúncio de investimento alemão na quinta-feira passada, durante o almoço de lançamento a iniciativa durante a Cúpula dos Líderes, evento de Chefes de Estado que abre a COP30, em Belém. Diante do silêncio, o governo passou a esperar um sinal na reunião bilateral entre Merz e Lula no dia seguinte, mas o encontro também terminou sem uma cifra.
Segundo pessoas ligadas ao governo alemão, não foi surpresa; o Brasil sabia que não haveria número.
O receio em investir, puxado pela ala econômica do governo alemão, ecoa os apontamento do crítico mais vocal ao TFFF, o economista também alemão Max Alexander Matthey, cuja tese de doutorado propõe alternativas para o financiamento climático. Seu orientador, o professor Aidan Hollis, da Universidade de Calgary (Canadá), também critica o projeto.
Em publicações no Linkedin e na imprensa ao longo do ano, a dupla bateu na tecla de que o TFFF propõe um dinheiro ‘mágico’, por prever que os investimentos em renda fixa renderiam retornos de 7% a 8% de forma consistente, de forma que fosse possível pagar 4% de retorno aos investidores e sobrar outros 3% para as florestas.
À coluna, a dupla afirmou que o risco, em momentos de incerteza do mercado financeiro, é que os títulos de renda fixa não rendam o suficiente sequer para pagar de volta os países investidores – que recebem sua parcela somente após os investidores privados. Além do investimento inicial dos países poder ser perdido, as florestas ficam em último lugar na fila de recebimento e também podem acabar sem a remuneração.
A Alemanha é doadora da iniciativa que inspirou o TFFF – o Fundo Amazônia – junto à Noruega, que anunciou o maior aporte ao novo fundo: US$ 3 bilhões. Entretanto, o dinheiro norueguês deve ser investido ao longo de uma década e sob uma condição: não deve ultrapassar 20% do total investido. Com isso, ele só passa a compor a receita do fundo quando a receita inicial estiver acima dos US$ 12 bilhões.
Por Folha de São Paulo
Publicado em: Política


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