O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, foi recepcionado com uma pergunta direta ao entrar no gabinete do presidente Lula (PT) na manhã do último dia 4. “Você está me espionando?”, questionou o chefe da Advocacia-Geral da União, Jorge Messias. Para o ministro, havia meses que a PF estava em seu encalço fazendo algum tipo de arapongagem, e ele decidiu tirar satisfação. “É verdade que estão monitorando o meu telefone?”, acrescentou, extremamente irritado e intercalando alguns xingamentos.
Naquele dia, Lula e Messias haviam participado de um evento no Palácio do Planalto para celebrar a sanção de leis relacionadas ao sistema de Justiça brasileiro. Após a cerimônia, os dois receberam Andrei Rodrigues na sala presidencial. Pessoas que ouviram relatos do episódio disseram que a conversa, acompanhada a todo momento por Lula, foi “dura”, “tensa” e “ríspida”.
A cobrança foi considerada a gota d’água de uma série de divergências que vinham se arrastando nos bastidores das investigações sobre o Banco Master. Messias e Rodrigues compartilhavam do mesmo sentimento de desconfiança.
De um lado, o chefe da AGU tinha a certeza de estar sob vigilância por meio do aparato da PF e se sentia pressionado a questionar as decisões de André Mendonça, relator do inquérito. Messias resistia a ingressar com contestações por ver na medida uma brecha para as defesas tentarem anular o processo.
De outro, Rodrigues afirmava que era preciso conter as ações de Mendonça justamente com o objetivo de preservar as investigações e reclamava que suas conversas privadas, sempre que havia alguma vinculação com Messias, chegavam a uma velocidade impressionante aos ouvidos do ministro do Supremo Tribunal Federal.
Diante de Lula, o chefe da PF negou categoricamente qualquer monitoramento em relação a Messias. A pessoas próximas, Andrei Rodrigues contou que respondeu num tom ainda mais elevado, classificando a postura do ministro da AGU de “chilique” e dizendo que ele, que é evangélico, deveria dar sermão na igreja, e não no Planalto.
Messias, sem ser convencido de que não estava sob vigilância, alertou que Andrei Rodrigues poderia ser formalmente cobrado por suas ações. Quatro dias depois, o ministro André Mendonça determinou o afastamento dele do comando da Polícia Federal alegando que a inteligência da corporação estava fazendo um “monitoramento sistemático” e “ilícito” contra ele e Jorge Messias (leia mais abaixo).
Dias antes, um outro episódio já marcava o clima de tensão interna. Numa reunião para discutir a crise no STF, o chefe da Secretaria de Comunicação, Sidônio Palmeira, afirmou que André Mendonça era “amigo” e “irmão” de Jorge Messias —que reagiu, mais uma vez, com alguns xingamentos e negou qualquer ingerência sobre os atos processuais do ministro do Supremo.
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